Conferência "Combatentes da Benedita e nossos vizinhos na Grande Guerra (1914-1918)"

José Luís Machado no seu livro Tempo Imemorial – Benedita e a sua história, (1980) refere que os 43 soldados da Benedita expedicionários na Grande Guerra de França colocaram na igreja velha, uma lápide com os seus nomes, por ocasião da festa em honra de Nossa Senhora da Encarnação, cumprindo a promessa de que o fariam, se regressassem todos vivos. (cf. p. 93). Diz ainda que o jornal nacional a ‘A EPOCA’ divulgou esse evento.

Eis a transcrição em português da altura, dessa grandiosa festa de três dias, realizada em agosto de 1919, seguida das fotos do tributo que a Terra Mágica das Lendas, CRL em conjunto com a Rádio Benedita FM e Junta de Freguesia, lhes prestou no passado dia 16 deste mês no âmbito das comemorações do centenário do final da Guerra assinado em 11 de novembro de 1918. 

BENEDICTA, 21.- Vim à Benedicta matar saudades. Quem não conhece a Benedicta, não sabe que nos confins do concelho de Alcobaça, a roçar com os concelhos das Caldas e Rio Maior, ha uma freguezia altamente abençoada por Deus, que a tem bafejado de mil carícias. O povo de Benedicta, firme nas suas crenças religiosas, amante das belas tradições que revelam amor à terra pátria, incansável na agricultura e hábil nos seus negócios, conseguiu crear um centro comercial que rivalisa em grande parte com as praças de muitas vilas.
   Pois n´esta freguezia efectuaram-se, ha pouco, festas solemníssimas, que excederam toda a minha expectativa.
   Eu lhes conto:
   Quando cheguei á Benedicta (foi no dia 14 do mez corrente), encontrei grande azáfama no preparar de arcos e bandeiras que haviam de enfeitar as ruas.
   Um grupo de rapazes, cheios da vivacidade própria da juventude, de harmonia com os zeladores da Associação do Sagrado Coração de Jesus não tinham um momento de descanço. Com um labor intensíssimo iam-se esforçando por darem ás ruas d´esta localidade um aspecto de beleza, que não destoasse dos festejos que, dias depois, haviam de aqui realisar-se.
   Junto ao cruzeiro que se ergue á beira da estrada districtal, foi arvorada, ao som de foguetes, a bandeira nacional e, ali ao pé, fazia negaças do cimo d´um mastro um aeroplano em miniatura, habilmente feito por um dos militares ha pouco regressados da França.
 A dentro da egreja, onde o trabalho das decorações estava quasi findo, levaram-me os olhos ás vistosas colgaduras vindas de Lisboa, Santarem e Torres-Novas, o throno prelaficio, a linda imagem de Nossa Senhora da Encarnação, Padroeira d´esta freguezia e a do Sagrado Coração de Jesus colocadas junto á tela, rodeadas de flores artísticas, de muito bom gosto.
   As festas iam começar.
   Já noite fechada, principiou o tríduo em preparação á festa do S.C. de Jesus. Houve exposição do Santíssimo, pratica, orações, cânticos acompanhados a orgão e benção encharistica.
   No dia seguinte- dia em que a Santa Egreja relembra a Assumpção de Nossa Senhora ao Céu - aguardava-se com impaciencia a chegada de S.Ex.ª Rev.ma, o  Arcebispo de Mytilene, que prometera vir a esta freguezia abrilhantar os festejos e administrar o Santo Sacramento do Crisma. 
   Eram 7 horas da tarde quando S. Ex.ª Rev.mª  , acompanhado de monsenhor Eduardo Coelho Ferreira e reverendos José Dias do Rosário e Francisco Vieira da Rosa, chegou á Benedicta, vindo em automóvel de Caldas da Rainha.
   Recebido com manifestações de sympathia da parte dos habitantes d´esta parochia que se apinhavam ao longo da estrada, mórmente no largo do Cruzeiro, S. Ex.ª Rev.a   dirigiu-se, para a capela de N. S. das Dôres, onde se paramentou, seguindo imediatamente debaixo do pálio, para a Egreja parochial. Tomaram parte na procissão quasi todos os irmãos da confraria do Santíssimo. Viam-se colchas de damasco em, algumas janelas, e pétalas de flores cahiam sobre S.Ex.ª Rev.a  que, abençoando a enorme multidão, ia caminho da egreja.
 O repicar dos sinos casava-se alegremente com o estralejar dos foguetes, que em grande número subiam aos ares, em signal de regozijo.
  Terminada a cerimónia do ingresso na Egreja e feita a adoração ao Santíssimo S. Ex.ª Rev.ma  subiu ao pulpito d´onde falou sobre a sua vinda a esta freguezia como representante do Ex.mo e Rev.mº Sr. Cardeal Patriarcha explicando depois com muita  clareza o que era o Sacramento do Chrisma, e a maneira de o receber com fructo. 
   Exposto solemnemente o Santissimo fez-se a devoção do triduo a que assistiu S. Ex.ª Rev.ma º indo depois hospedar-se em casa do sr. Antonio Joaquim do Carmo.
   Durante o dia de sábado confirmaram-se centenas de pessoas. 
   Por ocasião do tríduo prégou Monsenhor Coelho ácerca da Eucharistia e da necessidade da comunhão frequente.
   Domingo 17. Quando o sol começou a dourar a serra dos Candieiros, dezenas de foguetes atroaram os ares, repicavam festivamente os sinos (o tio Manuel Castilhano, sachristão e sineiro até cantava de alegria...) e a philarmonica da Maiorga deliciava-nos com as dôces notas das suas alvoradas.
   Logo de manhã, houve a missa rezada em que comungaram centenas de pessoas. 
   Pelas 9 horas, as creanças da comunhão solemne dirigiram-se processionalmente da Capela para a Egreja parochial. Eram 130. 
  Emquanto aguardavam a entrada de S. Ex.ª Rev.ma cantaram vários hymnos a duas vozes, com o mais vivo enthusiasmo.
   Fez-lhes a prática antes da missa S. Ex.ºRev.ma º que, n´uma linguagem toda singeleza e ternura, lhes falou das belezas da Eucharistia. A. S. Comunhão foi distribuida com toda a solemnidade, indo as creanças duas a duas, acompanhadas por anjos, até junto do altar-mór onde receberam das mãos de S. Ex.ª Rev.ma  o Pão dos Anjos. 
Em seguida á comunhão das creanças o rev. parocho administrou a S. Comunhão a muitissimas pessoas.
   Sem receio de mentir, pode afirmar-se que n´este dia comungaram mais de 600 pessoas.
   Dadas graças a Deus, as creanças dirigiram-se para o largo do cruzeiro onde lhes foi distribuído um abundante almoço. Corações generosos, conforme me disseram, contribuiram largamente para esta refeição. Como era de esperar, o almoço decorreu alegremente ao som da philarmonica que, ali perto, foi ostentando o seu escolhido repertório.
   A missa da festa em honra do S. C. de Jesus a que assistiu do throno S. Ex.ª Rev.ma  , foi cantada pelo rev. Francisco Vieira da Rosa, que teve por acolytos os revs. Mathias Augusto Rosa e José Marques Vieira. Prégou ao Evangelho Mons. Coelho ácerca da bondade do S. Coração de Jesus.
   Após a festa, S. Ex.ºRev.ma º  administrou o S. Chrisma a inúmeras pessoas, começando pelas crianças da comunhão. Pelas 5 horas da tarde sahiu a procissão do Santíssimo.
   Tenho assistido a muitos cortejos religiosos, mas este impressionou-me  sobremaneira. Admirei, em boa verdade o digo, a ordem imponencia e respeito que faziam realçar esta grandiosa manifestação da fé atravez as ruas da Benedicta. 
    A´passagem do Santissimo, que era levado por S. Ex.ºRev.ma º , todo o joelho se dobrava em homenagem de adoração a Jesus Sacramentado.
   Ao recolher da procissão, cantou-se o Tantum-Ergo, dando por fim S. Ex.ª Rev.ma  a benção com o Santíssimo.
Seriam 9 horas da noite quando principiaram as Matinas solemnes em honra de N. Senhora, cuja festa ia celebrar-se com toda a pompa no dia seguinte. Era festa de promessa, mandada celebrar pelos soldados d´esta freguezia, que estiveram nas campanhas de França e que a Virgem Santissima trouxera, sãos e salvos, á terra bemdita da Patria.
   Como no domingo, tambem na segunda feira houve toque da alvorada e repique de sinos. O estralejar de foguetes prolongou-se pelo dia fóra e grande parte da noite. 
   Ao sol fóra, celebrou-se o Santo Sacrificio da missa, em que aproximaram muitissimas pessoas da Sagrada Mesa da Comunhão.
   Quinze sacerdotes ouviam de confissão os fieis que desejavam tomar parte na comunhão geral dos soldados e que seria distribuida por S. Ex.ºRev.ma º .
   A comunhão dos soldados fardados militarmente foi profundamente comovedora. 
   Quando S. Ex.ºRev.ma º lhes estava fazendo a prática, antes da Comunhão, era impossível refrear as lágrimas que espontaneamente nos marejavam os olhos. Era a Comunhão de acção de graças e ao mesmo tempo recordação das comunhões frequentes que eles faziam em face ao inimigo nos campos de batalha. Os soldados e muitíssimas outras pessoas foram em seguida confirmados por S. Ex.ºRev.ma º .
   Eram horas de missa solemne de pontifical.
   Quem nos havia de dizer?
   Um pontifical na Benedicta!
   A festa havia de ser ultra esplendorosa, porque o benefício concedido fora singularíssimo. Partiram da Benedicta 43 rapzes para os horrores da guerra e voltaram todos, ilesos, ao seio das suas familias! Graça tamanha requeria agradecimento condigno! D´ahi, o Pontifical.
   Serviu de preshytero assistente o rev. parocho; diaconos do throno, os revs. Antonio Marques de Sousa e Moysés da Silva; diaconos da missa, os revs. Manuel Caetano e José Marques Vieira; ministro do baculo, o rev. Francisco Antonio Pereira, do livro, rev. Mathias Augusto Rosa e da (candeia,/candula ‘’) Acrísio d´Almeida. 
   No coro, para o canto de Tertia, viam-se os revs, Francisco Vieira da Rosa, José António da Silva, António Pereira Quartilho e Jacintho Faustino Ferreira.
   Prégou eloquentemente (não é elogio) o capelão militar rev. José Ferreira da Lacerda, director d´ «O Mensageiro».
   O orador, melhor do que ninguém, soube falar das agruras da guerra, ele que tão de perto acompanhou os soldados nos transes medonhos das batalhas.
   Foi um discurso nobremente patriótico, em que a flor da religião se entrelaçou aos actos (?) de patriotismo de que os nossos soldados deram provas por entre os fragores das pelejas.
   A meio do sermão, o orador convidou comovidamente dois soldados a lançarem ao peito de Nossa Senhora um colar e medalha de ouro - lembrança afectuosa de todos os seus camaradas e penhor de reconhecimento e carinho. N’ um rasgo de eloquencia apontou para a lápide comemorativa que esse punhado de soldados, gratos à  Mãe de Deus mandára colocar ao lado do altar de sua Padroeira e em que se lê gravada esta inscripção:
                                                  A’
                                      Rainha dos Céus
                          Bemdita Senhora da Encarnação
                                         os soldados
                            da freguesia da Benedicta
                          expedicionários á grande guerra
                                     travada em França
                               ao regressarem incólumes
                                       a Portugal
                             prestam rendida homenagem
                                       de filial amor 
                                  e de gratidão eterna
    Seguem-se os nomes dos soldados e a data da festa em acção de graças.
   Surperfluo seria dizer que muito coração se comoveu, e muita lagrima se derramou durante estes actos tão altamente impressionantes. A´missa de pontifical assistiu em logar de honra o ex.mo sr. alferes Mendes, digno representante do ex.mo comandante de infantaria nº 7, com sede em Leiria.
   Pessoas amigas oferecem um banquete aos soldados. N´ele tomaram tambem parte o ex.mo alferes Mendes, os capelães militares Lacerda, e Caetano e os rev.es parocho, Acrisio d´Almeida e Joaquim Antonio do Carmo em cuja residencia se deu lauto jantar. Brindou com palavras repassadas de patriotismo o rev. parocho, ovacionando o exército portuguez; e discursou brilhantemente o ex.mo sr. alferes Mendes sobre o valor e lealdade do nosso soldado que soube, lá, fóra, honrar briosamente o nome de Portugal.
   Eram horas e mais do que horas, para a procissão. A imagem de Nossa Senhora e a de S. Sebastião bem como o palio, cruzes, lanternas, bandeiras e outras insígnias eram levadas pelos soldados que, com as suas fardas davam á procissão um brilho excepcional. A bandeira nacional era conduzida pelo ex.mo sr. alferes Mendes atraz do andor de Nossa Senhora. Ao entrar a procissão na egreja s. ex.o rev. ma que levara o Santo Lenho na procissão, entoou o «Te-Deum», que foi superiormente executado, como o foram as missas da festa e matinas solemnes pelo grupo de cantores vindo de Santarem em companhia do distincto organista do Seminario, o rev. Sabino Paulino Pereira.
   A estes cantores outros se juntaram e que muito concorreram para o esplendor d´estas festividades. No dizer das pessoas de edade, nunca a Benedicta vira nas suas ruas tão enorme multidão de povo, como n´este dia. Eram milhares de pessoas vindas de todas as freguezias circumvizinhas e das vilas de Alcobaça, Caldas e Rio-Maior. 
Louvores a Deus, não houve o minimo incidente que viesse deslustrar tão dealumbrantes festejos. 
   Na terça-feira, dignou-se s. ex.o rev. ma benzer o cemiterio parochial, para onde se dirigiu em procissão. A meio d´aquele recinto, falou sobre a eternidade, e, concluída a cerimónia da bênção do cemiterio e da respectiva capela, celebrou a Santa Missa, emquanto o rev. parocho ia recitando com os fieis o Rosario de Nossa Senhora.
   Os soldados desfolharam flôres sobre a campa de um camarada seu, ha mezes, falecido n´esta freguezia. Por alma d´ele tambem o rev. parocho celebrou missa na capela do cemiterio. Durante o dia, s. ex.ª rev. ma administrou o Santo Chrisma a centenas de pessoas. 
   Não podendo por mais tempo permanecer n´esta freguezia, devido ao precário estado de saúde do ex.mo prelado, sr. ex.o rev.ma teve de partir para Lisboa na manhã de quarta-feira, deixando na Benedicta o suave aroma das suas virtudes e a saudade d´aqueles dias de bençãos, passados junto ao Santuario de Nossa Senhora.- C






Painel: Clara Penas  (Presidente Assembleia de Freguesia da Benedita), Coronel Luís de Alquerque (Director Museu Militar de Lisboa), Maria Lurdes Pedro (Presidente Junta de Freguesia da Benedita) e Filipe Luís (Jornalista, director e editor da Visão).



































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