A vida dura de pastor - poema de Adelino Maria Lopes

Quando da escola saia

Logo feita a 4.ª classe

Mal sabia o que seria

Da vida, minha outra face


Dez anos feitos há pouco

Meninice mal contida

Que teria feito eu

Para ter tão dura vida?


Triste sorte sem orgulhos

De qual natureza vim?

Matos, serras, pedregulhos

Como que esperavam por mim


Solitário e abandonado

Neste tormento tamanho

Vigiava com cuidados

O manso do meu rebanho


Das quintas e o lheirão

E a serra toda inteira

Tapada, barreiro, covão

E a cova da espinheiria


Pau e saco de farnel

Poucas migalhas de pão

que para ser mais cruel

repartia com o meu cão


Magro farnel me salves

Das agruras e cansaço

O vinho de Pedro Alves

Duro Salazar descalço


Dias, semanas e meses

estações e anos inteiros

Sempre, sempre muitas vezes

Solitários companheiros


Nao havia que comer

Nos campos despovoados

Havia que adormecer

Os seres vivos descuidados


Melros, Gaios, Codornizes

Cartaxos, ninhos inteiros

Coelhos, láparos, perdizes

Até ouriços caixeiros


Quem tem fome, cardos come

Diz o povo num ditado

Se alguém quer matar a fome

Nem tem que olhar para o lado


Grelos de silva e roseira

Caracóis e cogumelos

Bagos de murta e espinheira

Era um regalo come-los


E assim tão triste vida

Tornou-se numa beleza

Que bela e bem querida

A vida na natureza


A chuva não era fria

Nem a dura da geada

Das trovoadas me ria

E do sol que me queimava


Vivo, alegre, ligeiro

Corria na borganiça

De casa de sapateiro

Descalço  e pés de cortiça


As longas azeitonadas

Na bela Quinta da Serra

Humildes e maltratadas

Vem gentes doutras terras


O pastor que sempre em frente

Das boas e ternas donzelas

Já ficava bem contente  

Só de lhe ver as canelas


Quando regressava a casa

Já de noite ao fim do dia

Tão rapidos ocmo uma brasa

Até o meu cao sorria


Para aos domingos rezar

ouvir missa e sermão

Toda a noite a vaguear

O rrebanho, eu e meu cão


Animal inteligente

De pureza invulgar

Melhor que muita gente

Só lhe faltava falar


E nesta santa ignorância

Nove anos foram passados

O melhor de minha infância

Fora de Berços doirados


Adelino Maria Lopes (jan 938-jul 2004)

in Jornal ‘Pórtico’ 17 /12 /93





 



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